Freud e Lacan foram médicos antes de se tornarem psicanalistas. Partiram desse lugar para pensar o corpo, mas encontraram e sustentaram uma hiância, uma lacuna, um furo, onde o discurso médico já não dava conta das implicações de um corpo que não era mais apenas biológico, as respostas anatômicas não davam conta do sofrimento que se manifestava. Foi a partir disso que ambos se voltaram à escuta do sintoma, não como sinal de uma disfunção orgânica, mas como expressão de um sujeito dividido, tomado pela linguagem.
Essa tensão entre o saber médico e o corpo marcado pela linguagem é destacada por Lacan (1998) em seu texto O lugar da psicanálise na medicina, onde aponta a ruptura instaurada pela ciência na relação entre o saber médico e o corpo. Ele chama isso de “falha epistemo-somática” uma fratura entre o corpo como organismo funcional e o corpo como lugar de fala e gozo. Diante disso, a psicanálise não se propõe a complementar o saber médico, mas a se posicionar justamente no ponto em que ele caduca, onde o sujeito escapa à captura diagnóstica, e o corpo se apresenta como enigma. Gesianni (2022, p. 44) destaca as balizas da clínica lacaniana e em qual lugar a medicina repousa:
“[…] sendo elas, a demanda, o desejo e o gozo do corpo que confluem em uma dimensão ética. Sendo a demanda apontada como a dimensão em que se exerce a função médica e que se difere, às vezes, até se opõe àquilo que se deseja, o psicanalista demarca aí a estrutura da falha existente entre a demanda e o desejo.”
Essa disparidade coloca em xeque a definição de sintoma sustentada pela medicina. Para a psicanálise, o sintoma não é apenas um sinal de disfunção ou um fenômeno a ser eliminado. Freud (1980, p.112) já nos mostra isso dizendo que “um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente; é uma consequência do processo de repressão” embora cifrado, ele emerge. Assim, mais do que um sinal de erro, o sintoma surge como uma resposta subjetiva a um impasse estrutural, uma tentativa singular do sujeito de lidar com a castração, com a falta, com o impossível de simbolizar. Ele fala, mesmo quando se apresenta no corpo. Lacan (1999, p. 477) reafirma essa lógica ao descrever “o sintoma nunca é simples, é sempre sobredeterminado. Não há sintoma cujo significante não seja trazido de uma experiência anterior. Essa experiência está sempre situada no nível onde se trata do que foi reprimido”. Nessa mesma linha, Maurício (2017, p. 29) coloca o sintoma como necessário para a transferência, conceito tão importante para a psicanálise,
“Em outras palavras, o sintoma elege o Sujeito Suposto ao Saber (S.s.S.), posição em que é colocado o analista, pois se não há sintoma, não haverá uma interrogação cuja resposta é suposta pelo analisante no analista. O analista evidentemente não sabe o porquê do sintoma de seu analisante, e por isso escuta, saindo da posição de saber para se posicionar no lugar do não saber, do ignorante, que escuta.”
No entanto, esse corpo falante é sistematicamente silenciado pela lógica dominante da saúde e da normalidade imposta no nosso tempo. Como muito bem articula Foucault (2018), “O controle da sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista”. O controle sobre o corpo não é invenção da contemporaneidade, ele tem raízes históricas profundas. O que antes era atribuição do poder pastoral, que visava a salvação do sujeito em outro mundo, se desloca para o campo da ciência e da medicina, que agora definem o bem-estar em função da saúde. Mas que saúde é essa?
É justamente nesse ponto que se escancara o processo da medicalização, em que a saúde é entendida como ausência de doença, como normatividade corporal e psíquica. A sexualidade vira patologia, o sofrimento é traduzido em transtorno, e o corpo, transformado em objeto. Frente a isso, a psicanálise sustenta o corpo como lugar de conflito e significação, recusando sua redução a um organismo regulável. Não se trata de curar, mas de escutar e de sustentar o que no corpo insiste como furo, gozo e linguagem. Para Freud (1996, p. 361) “[…] eliminar os sintomas não equivale a curar a doença. A única coisa tangível que resta da doença, depois de eliminados os sintomas, é a capacidade de formar novos sintomas.”
Essa medicalização contemporânea do corpo, portanto, atua como um mecanismo de controle social, impondo normas rígidas sobre o que é considerado saudável, normal ou patológico. Essa lógica não apenas patologiza a sexualidade, o comportamento e as emoções, mas também invade etapas da vida que deveriam ser atravessadas de modo singular, como a infância e a adolescência. O sujeito, reduzido a um conjunto de sintomas a serem corrigidos, localizados em uma bíblia, ops, no DSM, perde a dimensão singular de seu sofrimento, que é convertido em um caso clínico a ser manejado. É nesse ponto que os novos diagnósticos, como TDAH, TOD, TEA entre outros, se impõem como tentativas de organizar esse corpo que escapa. Ao nomear rapidamente, o risco é calar. O que essas nomeações oferecem, muitas vezes, não é escuta, mas enquadre adaptativo. Como os Titãs (1989) escancaram na sua música O pulso:
“Hepatite, escarlatina, estupidez, paralisia
Toxoplasmose, sarampo, esquizofrenia
Úlcera, trombose, coqueluche, hipocondria
Sífilis, ciúmes, asma, cleptomania
E o corpo ainda é pouco
O corpo ainda é pouco
Assim”
Como alerta Dunker (2011), o risco é a colonização da clínica pelo discurso da saúde mental positivada, ameaçando transformar o sujeito em objeto de regulação. Nesse cenário, a escuta psicanalítica emerge como resistência, oferecendo um espaço onde o sintoma não é apagado, mas interpretado como enigma e discurso do inconsciente.
Lacan nos mostra como o corpo é estruturado pelo significante, marcado pela falta e pelo desejo que nunca se satisfaz completamente. O Estádio do Espelho, por exemplo, evidencia como a imagem do corpo é também construção. Os sintomas que se manifestam no corpo, desde compulsões até doenças corporais, são formas pelas quais o sujeito expressa seu conflito interno, sua relação com a castração e o impossível de simbolizar. No seminário sobre A transferência, Lacan (1992, p. 262-263) afirma:
“O que a experiência analítica nos ensina em primeiro lugar é que o homem é marcado, é perturbado por tudo aquilo a que se chama sintoma na medida em que o sintoma é aquilo que o liga aos seus desejos. Não podemos definir-lhe o limite nem o lugar por satisfazer isso sempre, de alguma maneira, e, o que é mais, sem prazer”
Indicando que o corpo é afetado não apenas simbolicamente, mas também pelas pulsões, pelo gozo, ali onde o sujeito encontra um limite.
Diante desse corpo que fala e resiste à normalização, o analista não deve assumir o papel de técnico da adaptação social, nem de mero aplicador de protocolos. Pelo contrário, sua função é acolher o enigma do sintoma, respeitando a singularidade do sujeito e sua divisão fundamental. A clínica psicanalítica não visa corrigir um defeito ou ajustar o sujeito aos padrões, sejam quais forem, mas criar um espaço em que o desejo possa emergir e ser elaborado, mesmo que na linguagem do sintoma. O analista sustenta, uma ética que não cede à tentação de domesticar o inconsciente, mas sim preservando seu caráter subversivo.
Assim, a clínica psicanalítica contemporânea aposta na escuta que recusa reduzir o sujeito a um diagnóstico ou a um corpo desvinculado da linguagem. Ela se inscreve na tensão entre carne e discurso, corpo e desejo, sofrimento e sentido, reconhecendo que a singularidade do sujeito reside justamente nesse enigma. Em um tempo marcado pela medicalização crescente, pela normatização do corpo, contra os imperativos diagnósticos e capturas adaptativas, a clínica lacaniana permanece como espaço de resistência ética e política ao empobrecimento da escuta. O corpo não é só carne, é carne atravessada pela linguagem, e a escuta do analista começa justamente onde a carne fala.
REFERÊNCIAS
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. São Paulo: Annablume, 2011.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2018
FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias sobre a psicanálise: Parte III. In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
GONÇALVES, Gesianni Amaral. Corpo e clínica psicanalítica: teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2022.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
MALISKA, Maurício Eugênio. Gozo(s): do sintoma ao sinthome. Campinas: Pontes, 2017.
TITÃS. O Pulso. In: Õ Blésq Blom. Rio de Janeiro: WEA, 1989.