A disciplina de Psicopatologia Psicanalítica me convocou a pensar a clínica contemporânea a partir de outra lógica, aquela em que o autismo não aparece como doença, déficit ou atraso, ditada por certa ciência, mas como uma forma singular de laço com a linguagem e com o gozo, um possível modo de existência que alguns autores propõem reconhecer como uma quarta estrutura. Como observa Maleval, “o autismo não é mais uma psicose” (2015, p. 1), o que já indica um distanciamento em relação ao modelo tradicional das psicoses. O autor acrescenta ainda que “Rosine e Robert Lefort não hesitaram em estendê-lo, fazendo do autismo uma quarta estrutura subjetiva” (MALEVAL, 2015, p. 13). Num contexto em que as referências simbólicas se fragilizam e os modos de vida proliferam sem oferecer garantias, o autismo torna-se ainda mais visível não apenas por seus fenômenos sensíveis, mas por colocar em cena, de maneira radical, o ponto de fratura entre o simbólico e o real. É nessa fratura que se reabre algumas perguntas: o que, na função materna, não opera enquanto inscrição? E, complementarmente, o que, na função paterna, encontra recusa e não chega a se inscrever como metáfora?
O autismo está na boca do povo, isso diz muito do nosso tempo. Essa intensificação da presença do autismo no discurso social não é um fenômeno puramente clínico. A circulação do termo se dá acompanhada de uma apropriação crescente pelo discurso capitalista, que encontra no diagnóstico um nicho lucrativo. Escalas, protocolos, cursos de capacitação, plataformas de intervenção padronizada e programas intensivos de treinamento conformam hoje um vasto mercado. Quanto mais se expande esse tipo de discurso, mais se corre o risco de reduzir o sujeito ao rótulo, substituindo a singularidade por um roteiro de procedimentos. A psicanálise, ao contrário, sustenta o ponto em que o sujeito escapa à padronização, é justamente essa questão que tende a ser apagada quando o diagnóstico torna-se mercadoria, ignorando sua dimensão constitutiva.
Para a psicanálise, a constituição envolve duas operações fundamentais, a alienação ao desejo do Outro e a separação que permite a entrada na lógica da falta. Antes de qualquer saber sobre si, o bebê depende de uma função materna entendida como operação simbólica, e não como qualidade pessoal da mãe. É essa função que o faz existir como alguém suposto ao desejo do Outro, introduzindo na linguagem. Quando essa operação não incide, não por falta afetiva, mas por um impasse simbólico, o infans permanece fora do circuito do endereçamento. Jerusalinsky enfatiza essa distinção ao afirmar que os analistas trabalham “a partir do ângulo da função materna e não da mãe” (JERUSALINSKY, 2012, p. 47), diferença que escapa às leituras moralizantes que estabelecem “fáceis relações de causa-efeito entre acontecimentos simplesmente contíguos, as mães passaram a ser as culpadas do autismo do filho” (JERUSALINSKY, 2012, p. 47).
Kupfer aprofunda esse ponto ao distinguir responsabilidade de culpa. Culpar a mãe suporia que o afeto ou a presença bastariam para formar sujeito. Responsabilizar a mãe ou cuidador, ao contrário, implica reconhecer que a inscrição simbólica depende de uma suposição de desejo operada no campo do Outro, “significa engajá-lá neste movimento de resgate do que não pôde acontecer quando seu filho era ainda um bebê” (KUPFER, 2000). Quando essa inscrição falha, o bebê pode permanecer em uma posição em que “não há Outro como lugar do significante nem como lugar da imagem, nem sequer o Outro portador do objeto.” (BARROSO, 2019, p. 1240). O autismo, nessa perspectiva, apresenta-se como uma das respostas possíveis à ausência dessa operação inaugural, um modo de existir diante do não recobrimento simbólico do corpo.
A hipótese da quarta estrutura, presente nas formulações de Jerusalinsky (1993), ajuda a demarcar melhor o autismo fazendo um contraponto com a psicose:
“Por isso, levando em conta a palavra estrutura no campo da psicose na sua extensão máxima, ou seja, no que se refere à lógica que articula a posição do sujeito a respeito do significante, eu diria que entre psicose e autismo não há nenhuma identidade de estrutura, porque num caso se trata da forclusão e no outro se trata da exclusão” (JERUSALINSKY, 1993, p. 63).
Não havendo inscrição, o que se encontra é o real sem mediação, o puro gozo, frente ao qual o sujeito precisa inventar modos de borda, como objetos autísticos, rotinas rígidas, repetições, duplos, movimentos corporais que produzem uma espécie de proteção. Essas invenções não são sintomas no sentido neurótico, são possíveis defesas, soluções que permitem algum ordenamento frente ao excesso.
Do ponto de vista da separação, a função paterna, formulada por Lacan como operador metafórico que introduz a lei e limita o gozo, não encontra inscrição no autismo. Como o autor afirma, “a função do pai é introduzir a lei no lugar do desejo, instaurando a mediação que limita o gozo” (LACAN, 1958/1998, p. 557). A ausência dessa operação impede a passagem pela perda constitutiva implicada na metáfora. Nesse sentido, Maleval observa que o autista mantém uma relação particular com a linguagem: “ele pode até não falar, mas é um ‘mestre da linguagem’, tem sobre ela o controle por meio de sua recusa em arriscar a fala (…)” (MALEVAL, 2017, p. 125). Tal recusa não é empírica ou cognitiva, mas estrutural, visa evitar o equívoco próprio do significante e a perda inerente à entrada na ordem simbólica. Trata-se, portanto, de uma defesa anterior à dialética fálica, um modo singular de proteger-se da invasão do Outro.
Essa relação específica com o simbólico se articula diretamente com a sexuação. A função fálica é o operador que limita o gozo e organiza a diferença sexual. No autismo, porém, ocorre uma elisão dessa função, o sujeito não se inscreve nem do lado do “todo fálico” nem do “não-todo” proposto por Lacan, “Digo que a mulher é não-toda na função fálica, ao passo que, do lado masculino, tudo se inscreve sob a função fálica.” (LACAN, 1972–1973/1985, p. 82). O que aparece é um gozo do Um, autorreferente, autoerótico, circular, que encontra satisfação na repetição. Maleval (2017) descreve essa forma de gozo como sem mediação, isto é, independente da articulação significante. “O gozo do vivo não se prende ao significante – de modo que suas sensações e suas imagens carecem de elementos reguladores.” (MALEVAL, 2017, p. 123). Isso ajuda a entender a recusa do equívoco, da metáfora e da polissemia. O que, na neurose, produziria sintoma, metáfora e significação, no autismo funciona como borda, ritmo e defesa contra a invasão.
Essa elisão da função fálica não está desligada das transformações culturais contemporâneas. Vivemos um tempo em que os semblantes se multiplicam sem garantir ancoragem simbólica, e em que o Nome-do-Pai perde eficácia. “Assistimos ao declínio da função paterna e à proliferação dos semblantes, que já não encontram sua garantia no Nome-do-Pai.” (MILLER, 2005, p. 14). A fragmentação das identidades de gênero, a fluidez dos modos de se nomear e a crescente instabilidade das distribuições simbólicas são efeitos desse enfraquecimento. Dentro dessa paisagem, o autismo surge como um ponto extremo, uma forma de subjetivação que opera em um cenário em que o simbólico já não estrutura como antes.
Assim, o autismo deixa de ser apenas uma categoria clínica e torna-se expressão de uma maneira de se posicionar frente ao Outro. Enquanto muitos indivíduos da atualidade parecem naufragar em depressões, compulsões, retraimentos e crises de sentido, sintomas marcados por um excesso de gozo sem amarra simbólico, o autismo aponta uma solução inversa, um fechamento rigoroso, uma borda construída para impedir a invasão do Outro e preservar uma mínima consistência existencial.
Nesse panorama, a ética do analista torna-se ainda mais exigente. Como observa Maleval, “a psicanálise não visa normalizar o sujeito, mas permitir que ele encontre uma solução própria para seu modo de gozo” (MALEVAL, 2017, p. 17). Em vez de tentar reinstalar uma metáfora paterna ausente, trata-se de acompanhar a invenção singular do sujeito, reconhecendo que sua defesa não é erro, mas solução. Nessa direção, Kupfer lembra que “responsabilizar não é culpar; é supor ao sujeito um lugar no laço” (KUPFER, 2001, p. 54) e que o trabalho clínico consiste em “oferecer condições para que alguma inscrição subjetiva possa emergir” (KUPFER, 2000, p. 103), sempre respeitando sua economia própria.
Pensar o autismo pela via da falha da função materna e da recusa da função paterna é reconhecer a fragilidade simbólica dos tempos atuais. Se no passado a neurose ocupava o lugar paradigmático da subjetividade, marcando o conflito entre desejo e lei, o autismo evidencia outro tipo de mal-estar, aquele que emerge quando o Outro não oferece consistência suficiente para que o desejo se organize. Nesse cenário, a clínica psicanalítica não se orienta por corrigir, adaptar ou normalizar, mas por sustentar o espaço vazio necessário para que cada sujeito, inclusive aquele que constrói bordas para sobreviver ao real, possa inventar seu modo de existir. O autismo não se apresenta como erro da natureza ou falha da maternagem, mas como uma solução possível diante de um Outro, uma forma de construir bordas para não se perder no gozo. A ética da psicanálise é justamente essa, não completar o Outro, mas preservar o intervalo que permite ao sujeito emergir. E é nesse gesto de invenção, frequentemente silencioso e invisível aos discursos normativos, que o autismo nos ensina algo essencial, a coragem de permanecer vivo fora do sentido.
REFERÊNCIAS
BARROSO, Suzana. O autismo para a psicanálise: da concepção clássica à contemporânea. Psicologia em revista, Belo Horizonte, v. 23, n. 3, p. 1231- 1247, 2019.
FINK, Bruce. O sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise do autismo. São Paulo: Instituto Langage, 2012.
JERUSALINSKY, Alfredo. Psicanálise e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
KUPFER, Maria Cristina. Notas sobre o diagnóstico diferencial da psicose e do autismo na infância. Psicologia USP, v. 11, n. 1, p. 85–105, 2000.
KUPFER, Maria Cristina. O bebê e o brincar: inscrição e constituição psíquica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.
KUPFER, Maria Cristina. Da ética do bem-dizer à ética do bem-cuidar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
MALEVAL, Jean-Claude. O autista e sua voz. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.
MALEVAL, Jean-Claude. Por que a hipótese de uma estrutura autística? Tradução de Carolina Furtado. Recife: Centro de Estudos Psicanalíticos – CEPP, 2015.
MALEVAL, Jean-Claude. Psicanálise e autismo: escolher o sujeito. Le Journal Français de Psychiatrie, n. 36, p. 45–50, 2012.
MILLER, Jacques-Alain. A era do Outro que não existe e seus comitês de ética. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.